: Ao amor que não aconteceu

De alguma maneira, penso em como seria. Você também sabe que seríamos bons, possivelmente ainda estaríamos nos agarrando por aí,  assistindo filmes em minha sala, trocaríamos impressões sobre as bandas que conhecemos ou apresentamos um ao outro, sobre os livros que lemos. Você acompanharia meu entusiasmo pelos personagens de HQ, ficaria ansioso comigo pelos lançamentos cinematográficos. Dói. Nos fazíamos felizes, você sabe disso. Embirrávamos um com o outro, dois teimosos, dois ciumentos, dois malucos, dois juntos. Você olhava para a Lua comigo e entendia minha devoção para ela. Passeávamos a esmo, riamos por nada, gostávamos do nosso silêncio. Eu me irritava com as conversas pela rede social, o deixava sem respostas, na verdade, sumo sem dar satisfações. E você nunca desistia, sempre me procurava, mesmo ficando inseguro com o meu jeito de ser. Lembra uma vez que fiquei duas semanas sem responder você? Esperou passar o que quer que tivesse me irritado e conversou comigo sem questionar meus motivos. Adoro isso.

Ao mesmo tempo, me pergunto se isso seria suficiente para levar adiante uma relação. Se suas relutâncias frente a alguns dos meus dilemas e sua constante insegurança (disfarçava, mas eu percebia) poderiam ser superadas por mim. Poderia até balança, mas sempre soube que não é o tipo de homem que me enquadraria. Provavelmente, nem exista esse homem dentro de sua mente. Entretanto, tocar, beijar, estar com você é uma lembrança que traz outras. Sempre pensei em nós, sem doenças ou neuroses, de uma maneira saudável. Entretanto, há ausências que são mais fortes do que as presenças, falam mais sobre alguém do que até ele. Sua ausência sussurra leve em meus pensamentos, diz que teríamos muito a viver e sentir. Que foi um amor que não aconteceu.

Você chama de paixão a euforia, a neurose, a cegueira. Dessas, tive várias, várias. Com você foi diferente, uma segurança insegura, uma leveza, uma alegria boa, que, ao invés de roubar o ar, o soprava em mim. Aliás, em nós. Nem percebeu o quanto se mostrou, tentou se fechar em um casulo e ser esse personagem que até seus amigos acreditam ser real, que não é homem para mulher alguma, um cara sem futuro por causa de seus traumas. Eu vi seu lado A, esse escondido e doce lado A. Vi o homem inseguro, com baixa autoestima, que não acredita em si. Lembra que desacreditava das minhas declarações, que era impossível uma mulher como eu gostar de um homem como você? Que poderia ter caras muito mais e melhores. Sou tão mulherão assim? Ontem à noite, pensei em todos os motivos para não sentir, não querer. Um babaca, um fútil, que vive nesse mundinho de aparências, que alimenta amizades interesseiras, que desrespeitou meus sentimentos, que, por vezes, age como um idiota. Penso que, provavelmente, não é homem para mim. Alguém mais corajoso e em quem possa contar é uma escolha mais sensata.

Amor não é um beijo no corpo, é um beijo na alma, um encontro confuso de pessoas que não esperam por ele. Amor é vento que invade aos poucos, por debaixo das portas, vãos das janelas, entra de leve na vida, acaricia o coração e beija a alma. Hoje, ao invés de estarmos um em cada lado, poderíamos estar ao lado um do outro. Poderíamos abrir os olhos em uma manhã qualquer e perceber que o amor chegou de fininho, que vem tomando conta como um ladrão sorrateiro e deixando um frio de medo na barriga. Medo de perder, de ser rejeitado, não ser correspondido, um olhar falando ao outro o que esses dois teimosos evitariam de afirmar com a boca. Nosso rompimento não foi apenas por mim ou por você, foi uma fuga (mútua) de enfrentar uma situação e de explicar as suas motivações. Agora, lhe pergunto, valeu a pena ficar só e ter algumas parceiras e que não são e nem acrescentam nada? O que ganhou com isso?

Esse texto não é uma declaração de amor, é a constatação de que poderia, em algum momento, se transformar em amor. E, de todas as certezas que tenho, a de que poderíamos ser bons juntos e ter uma relação leve, nada séria e muito divertida é a que dói demais em mim, mesmo com todos os questionamentos que faço sobre você. Pensar em todas as oportunidades que perdemos de estar juntos, festas de final de ano, aniversários da família, finais de semana em que viajaríamos para algum lugar qualquer, todos os abraços que não trocamos, os beijos que não foram dados. No amor que não aconteceu. No amor que não dedicamos um ao outro. Sou intensa e profunda, talvez seja isso que tenha assustado você, tão acostumado com mulheres egoístas, fúteis e focadas em seu próprio bem estar. Como somos parecidos, sua intensidade bem escondida teve medo de se manifestar. Não fizemos acontecer.

Então, saiba que dói. Quero que alguém me conquiste, tome meu coração e o leve para longe de você. Dei chances, infelizmente, ao que parece, a superficialidade está mais presente nas pessoas do que eu teimosamente duvidava. Disse que todas as mulheres são iguais, não preciso lhe provar que sou diferente. Tenho ética e escrúpulos e, principalmente, orgulho. Me oferecer nem passa pela minha cabeça. Permaneço por aqui, em algum momento, alguém vai me roubar de você e ter esse amor que seria seu. Quero dizer adeus, mas prefiro até breve. Até daqui a pouco, até daqui um dia, até nunca ou até amanhã, tanto faz. Você não aconteceu comigo, mas outro assim o fará. Espero por isso e quero que faça o mesmo. Arrivederci.

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