Laguna: Lagoa Santo Antônio viverá novo ciclo de desenvolvimento socioambiental

Por Gisele Elis Martins

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As águas que rodeiam Laguna voltarão a respirar e também toda a vida aquática que a compõe. Isso porque, a cidade está prestes a inaugurar as duas estações de tratamento de esgoto instaladas na Vila Vitória. Agora, 80% dos dejetos jogados, imprudentemente, nas águas salobras daqui serão tratadas.

Portinho, Progresso, Magalhães, Vila Vitória, Centro Histórico e parte do Mar Grosso estão entre as principais comunidades poluidoras da Lagoa Santo Antônio dos Anjos e serão beneficiadas com a instalação de um complexo de tratamento biológico de esgoto, com investimento de R$45 milhões do Governo Federal e Casan, integrando o PAC do Saneamento. Ao todo são 53,2 quilômetros de rede coletora de esgoto e duas estações de tratamento.De acordo com o gerente da Casan em Laguna, Renato Lopes, a inauguração acontecerá na próxima semana.

A herança do esgoto para a Lagoa Santo Antônio

Formado por oito lagoas, o Complexo Lagunar Sul é uma região importante no cenário pesqueiro de Santa Catarina. Sua ligação com o mar e outros rios faz dele um ambiente rico em variedade de peixes e crustáceos. Isso faz de Laguna, por exemplo, a cidade com maior número de pescadores artesanais do sul do estado.

Mesmo com essa generosa herança da natureza, o complexo lagunar e a Lagoa Santo Antônio dos Anjos, especificamente, vivem uma realidade nada poética. Muitos que habitam e sobrevivem destas águas estão sofrendo as consequências da poluição. Fato que traz à tona não só problemas ambientais, mas também econômicos e sociais.

Estudos revelam que o principal contaminante da Lagoa Santo Antônio não são os metais provenientes das usinas de carvão da cidade de Lauro Muller, como muitos pescadores e ambientalistas apontam. Nas análises de contaminantes realizadas, através do Projeto Biodiversidade do Rio Tubarão, em sedimentos, corpos d´agua e fauna associada ao longo da lagoa, foram encontradas grandes quantidades de esgoto doméstico.

“A predominância é de contaminação orgânica por coprostanol (fezes humana) devido à falta de tratamento de esgoto”, explica Sérgio Netto, autor do projeto, professor e pesquisador da Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul.

As comprovações não param por aí. Há dois anos, o professor e chefe do Departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Estadual de Santa Catarina -Udesc, em Laguna, Cristian Berto, realiza o monitoramento fisico-químico qualitativo em seis pontos da Lagoa Santo Antônio, incluindo as seguintes localidades: Bananal, Laranjeiras, Cabeçuda, Centro Histórico, Vila Vitória (Ponta das Pedras) e Ponta da Barra. As análises feitas no Laboratório de Análise Química Ambiental da universidade também comprovam a incidência de coliformes fecais, provenientes de esgoto doméstico.

Conforme o técnico em pesca da Epagri, Jefferson Oliveira, a lagoa Santo Antônio é de vital importância para o ciclo biológico de várias espécies de peixes e crustáceos, sendo um berçário natural de águas quentes que favorece o crescimento e desenvolvimento delas. “É a lagoa que faz conexão com o mar, por isso recebe o melhor e maior aporte de água do sistema complexo lagunar sul”, explica.

Com 33 quilômetros quadrados, sua geografia impressiona pela complexidade, ao fazer divisa com o mar e também com os rios Tubarão, Parobé e Ribeirão da Carniça (da Ponta Grossa). Ao todo são onze comunidades que costeiam a lagoa, incluindo a região central da cidade. Nos dois estudos, a maior quantidade de contaminantes foi encontrada na região da Vila Vitória, Ponta das Pedras, Portinho e Cais do centro histórico, regiões com grande índice populacional e o maior número de habitações ribeirinhas.

“Além do esgoto, os poluentes lançados na lagoa veem também do Rio Tubarão, de outros pequenos rios e da ocupação marginal feita de forma irregular”, destaca o pesquisador Netto.

Os reflexos para a pesca artesanal

De acordo com o professor Cristina Berto, o lançamento de esgotos domésticos e agrícolas na lagoa resulta no aumento das concentrações de fósforo e nitrogênio. Esses elementos contribuem, consideravelmente, com a eutrofização das águas. “Dessa forma, podem favorecer a redução do oxigênio da água e as espécies que vivem nestes locais irão procurar um habitat menos contaminado para viver. Diminuindo a quantidade de peixes e crustáceos na lagoa”, explica.

Para o técnico da Epagri, o alto índice de poluição da lagoa associado a outros fatores como pesca irregular, assoreamento e desrespeito a áreas de proteção, representam uma ameaça a todas as espécies. “Hoje o mais prejudicado está sendo o camarão rosa”, afirma.

Há trinta anos pescando o famoso “Camarão Laguna”, Odair Preve diz que o crustáceo está diminuindo a cada ano. “Essa temporada foi muito ruim. Passei dias com as redes aviãozinho sem pegar sequer um quilo. Os últimos dois anos foram péssimos", desabafa.

De acordo com dados da Colônia de Pescadores Z-14 e do Sindicado dos Pescadores – Sindipesca, Laguna possui cerca de cinco mil pescadores artesanais, que dali tiram o sustento da família. De novembro a junho muitos sobrevivem da pesca do camarão na cidade.

As principais espécies capturadas por pescadores na lagoa Santo Antônio são o peixe rei, linguado, tainha, corvina, bagre, sardinha, savelha, borriquete, miraguaia, camarão rosa, anchova, siri, marimbau e tilápia.

Os riscos para os Botos Pescadores

Não bastassem todas essas consequências existe, ainda, uma que vem preocupando pesquisadores. O Boto de Laguna (Tursiops Truncatus), espécie caracterizada como patrimônio e símbolo do município e protagonista de um tipo de pesca cooperativa, única no mundo, está enfrentando problemas por lesões causadas por fungos.

Desde 2007, professores da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Udesc realizam o monitoramento dessa população. Há dois anos, segundo o pesquisador e professor Fábio Daura, o “sinal vermelho acendeu”. Pela primeira vez tivemos um aumento significativo da mortalidade e uma redução no tamanho da população que, em 2014, foi estimado em 47 indivíduos – uma redução de mais de 10%”.

Os fatores de risco são múltiplos, entre eles o emalhamento em redes de pesca, apontada como uma das principais causas. “Esses emalhamentos são mais comuns quando os indivíduos estão cansados, com fome, doentes e/ou estressados. Neste sentido, a qualidade da água e do ambiente em que vivem é fundamental”, explica Daura. Outros fatores como o tráfego intenso de embarcações, o uso irregular de jet skis, alterações de hábitat e a diminuição na disponibilidade de recursos alimentares, especialmente a tainha, principal espécie de peixe consumido pelo boto, também influenciam.

Além da redução no tamanho populacional, Daura e outros pesquisadores das duas universidades do estado estão monitorando os casos de doenças de pele em alguns indivíduos. “Até recentemente acreditávamos que essas lesões eram promovidas por um fungo, Lacazia loboi. No momento estamos revisando esse diagnóstico, buscando confirmar o agente etiológico. Por hora, podemos chamar essas lesões de semelhantes a lobomicose. Sugere-se que ela esteja diretamente associada a uma depressão do sistema imunológico”.

No momento, 12% dos botos de Laguna sofrem de lobomicose, o que corresponde a cerca de seis animais. “Esse número vem crescendo um pouco nos últimos anos, o que também nos deixa em alerta. Uma peculiaridade local é que alguns casos em Laguna mostram rápida progressão, o que não é comum para as outras populações de botos em que a doença é observada”, ressalta o pesquisador.

Além de acompanhar a prevalência e progresso nestes animais infectados, amostras da lesão estão sendo analisadas por um Laboratório da Universidade de São Paulo - USP, para tentar confirmar o agente causador. Outro trabalho, também em colaboração entre Ufsc e Udesc, está utilizando amostras de pele e gordura dos botos para avaliar níveis de acumulação de poluentes orgânicos e análises bioquímicas e moleculares que possam sugerir algo sobre o estado de saúde dos animais.

O Boto de Laguna também conhecido como Boto Pescador é uma espécie considerada fundamental para a pesca cooperativa realizada no canal dos Molhes da Barra. A maior concentração destes animais ocorre no trecho entre o canal da barra e das laranjeiras, águas que pertencem à Lagoa Santo Antônio dos Anjos. Nesta região, estão localizadas as principais comunidades diagnosticadas com o maior índice de poluição por esgoto doméstico.

De acordo com Daura, são realizadas projeções periódicas sobre o risco de extinção dessa população para os próximos cinquenta anos. “Confesso que nunca estive tão preocupado. O mais importante agora é garantir que novos vetores de impactos não ocorram e exigir melhorias na qualidade da água, além de continuar monitorando a população e essa doença de pele”, alerta o pesquisador da UFSC.

Consequências para o meio ambiente

A grande concentração de material orgânico na lagoa, segundo o professor Sérgio Netto, pode ocasionar a quebra repentina de oxigênio, anoxia, crescimento de algas e cheiro ruim.

Um fato registrado em dezembro de 2014 pode exemplificar o problema. Centenas de peixes da espécie savelha apareceram mortos nas Lagoas Santo Antônio, Imaruí e Mirim, três das oito que formam o complexo lagunar sul. O caso chamou atenção de ambientalistas, pescadores e principalmente da mídia. “Estou aqui na região há 14 anos e nunca vi uma morte tão grande de peixes como desta vez”, ressaltou Netto.

A falta de oxigênio gerada pela forte insolação, ausência de ventos que promovem a circulação da água e a alta concentração de esgoto doméstico geraram o fenômeno conhecido como anoxia, apontado como a principal causa da mortalidade.

A saúde do homem em risco

As águas que compõem o esgoto doméstico são as utilizadas para vasos sanitários, higiene pessoal, cocção, lavagem de alimentos e de utensílios. O esgoto doméstico é composto de matéria orgânica biodegradável, entre eles microorganismos (bactéria e vírus), nutrientes (nitrogênio e fósforo), óleos e graxas, detergentes e metais.

As bactérias, vírus, protozoários e vermes encontrados nas águas contaminadas por esgoto doméstico podem causar inúmeros problemas para a saúde como infecções intestinais epidérmicas e endêmicas, hepatites, infecções nos olhos, amebíases, giardíases, esquistossomose e outras infestações.

O esgoto no Brasil

No Ranking do Saneamento divulgado, recentemente, pelo Instituto Trata Brasil, o país ainda tem mais de 35 milhões de brasileiros sem acesso aos serviços de água tratada, metade da população sem coleta de esgotos e apenas 40% dos esgotos do país são tratados. Informações baseadas em dados publicados pelo Ministério das Cidades, no Sistema Nacional de Informações Sobre o Saneamento (SNIS).

Como será feito o tratamento do esgoto em Laguna?

Ao todo são 6.637 mil ligações domiciliares integradas através de redes coletoras e estações elevatórias. A estação de tratamento de esgoto é composta por dois tanques, que juntos tem capacidade para tratar 90 litros de esgoto por segundo. O tratamento biológico é feito por processo anaeróbio, isto é, sem oxigênio e aeróbio, com oxigenação.

A decomposição da matéria orgânica acontece por microorganismos presentes num manto de lodo. Os gases, principalmente o metano, irão passar por um processo de queimação e no final o líquido passa por um processo ultravioleta, saindo 99,9% sem impurezas.

O engenheiro civil da Casan, Alexandre dos Santos, explica que o procedimento não deve ter odores. Citando como exemplo a cidade de Imbituba. “Casan é pioneira no Brasil, neste tipo de estação de tratamento”, conta.

A engenheira Jéssica Passini, da empresa Confer, contratada para execução da obra, explica que as cargas poluentes do esgoto são eliminadas, devolvendo ao ambiente um efluente tratado, em conformidade com os padrões exigidos pela legislação ambiental.

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